Para as crianças que cresceram nas décadas de 1980 e 1990, a liberdade começava quando tocava a campainha da escola e terminava quando os candeeiros da rua se acendiam. Sem smartphones, sem partilha de localização e com muito poucos adultos por perto a vigiar. Essa liberdade quotidiana desapareceu discretamente, remodelada pela tecnologia, pelos receios de segurança e pela mudança nas normas parentais.
Desaparecer durante horas sem dar notícias
Em muitas casas dos anos 80 e 90, uma frase abria a porta ao mundo lá fora: “Vou sair.” Sem perguntas de seguimento, sem aplicações de rastreio, sem mensagens constantes.
Assim que uma criança saía pela porta de casa, ficava, na prática, “offline” até à hora de jantar.
Os pais muitas vezes não faziam ideia se os filhos estavam no parque, no quintal de um amigo ou três ruas acima a explorar um estaleiro de obras que lhes tinham dito para evitar. As regras não oficiais eram simples: ficar com alguém mais ou menos da mesma idade, evitar perigos óbvios e voltar antes de anoitecer ou antes do lanche prometido.
Hoje, a ideia de uma criança de 10 anos a andar “algures no bairro” durante uma tarde inteira alarmaria muitas famílias. A tecnologia elevou as expectativas: se é possível contactar uma criança a qualquer momento, não o fazer começa a parecer negligência.
No entanto, essa era de inacessibilidade obrigava as crianças a avaliar riscos em tempo real. Uma bicicleta avariada, uma curva errada, um atalho que foi longe demais - cada problema tinha de ser resolvido no momento, muitas vezes por um grupo de miúdos mal altos o suficiente para ver por cima das vedações dos jardins.
Ir a quase todo o lado sozinho
Ir a pé para a escola sem adultos era, em tempos, um rito de passagem, não uma manchete. Nos primeiros anos do ensino primário, as crianças formavam “autocarros” de caminhada informais, apanhando-se umas às outras de casa em casa.
Dados históricos do Reino Unido mostram como isso mudou drasticamente. No início da década de 1970, a maioria das crianças de sete e oito anos ia regularmente para a escola a pé, sem acompanhamento. Por volta de 1990, essa proporção tinha caído para menos de 10%. Dados comparáveis de França sugerem que a autonomia chega hoje anos mais tarde do que chegava antigamente.
O que antes era uma caminhada normal transformou-se, em muitos locais, numa operação logística gerida.
Os pais hoje frequentemente equilibram deslocações de carro para a escola, passeios de bicicleta supervisionados e percursos cuidadosamente escolhidos. As preocupações vão desde a segurança rodoviária e o trânsito até ao perigo de estranhos e à poluição do ar. O resultado é que muitas crianças conhecem o interior de um carro muito melhor do que as ruelas e atalhos perto de casa.
Para as crianças dos anos 80 e 90, as bicicletas eram tanto transporte como bilhete para a independência. Os capacetes existiam, mas a sua utilização era pouco exigida. Um sábado podia incluir atravessar a cidade de bicicleta até uma loja de aluguer de vídeos, ir a casa de um amigo e à loja da esquina - tudo sem supervisão adulta.
Tocar às campainhas para ver quem estava cá fora
Antes das aplicações de mensagens, a rede social era uma fila de campainhas. Os planos da infância não eram marcados; eram improvisados.
Ias a casa de um amigo, tocavas à campainha e perguntavas: “Podes vir cá fora?” A resposta era imediata e sem filtros: sim, não, ou “ele está na casa da avó”. Sem pais a coordenar por WhatsApp, sem convites no Google Calendar para brincadeiras dali a três semanas.
A espontaneidade - e um pouco de rejeição - faziam parte da amizade do dia a dia.
Se um amigo estava ocupado, tentavas outro. Eventualmente, formava-se um grupo de forma orgânica e o dia ganhava forma sozinho: uma peladinha no parque, uma rampa caseira para bicicletas ou um jogo elaborado que durava até alguém ser chamado para o chá.
Hoje, a vida social de muitas crianças é mais “curada”. Os pais coordenam horários, validam locais e gerem chats de grupo. A vantagem é a segurança e a inclusão; o custo é que as crianças têm menos oportunidades de lidar cara a cara com momentos desconfortáveis: a recusa, a discussão à porta, a decisão corajosa de voltar a tocar à campainha no dia seguinte.
Ver o que estivesse a dar na televisão - e mais nada
A escolha de entretenimento nos anos 80 e início dos 90 era reduzida. Um punhado de canais significava que, se perdesses o teu desenho animado preferido, era isso - até à próxima emissão. Sem repetição. Sem on-demand. Sem um algoritmo a sussurrar “próximo episódio?”
Os desenhos animados de sábado de manhã eram um acontecimento. Depois da escola, os programas infantis ocupavam um curto espaço antes de o telejornal da noite tomar conta da grelha. Quando esses programas acabavam, muitas crianças simplesmente desligavam a televisão e iam para a rua.
Conteúdo limitado criava um tipo estranho de abundância: mais tempo para tudo o que não era um ecrã.
Essa escassez também gerava uma cultura partilhada. Na segunda-feira de manhã, o recreio fervilhava com o mesmo episódio do mesmo programa, porque quase toda a gente o tinha visto. As crianças de hoje têm muito mais escolha, mas muito menos pontos de referência comuns, dispersos por plataformas de streaming, canais de YouTube e jogos.
Brincar na rua até os candeeiros se acenderem
A brincadeira ao ar livre, sem estrutura, dominava muitas infâncias. Os passeios tornavam-se campos de futebol, com camisolas da escola a fazer de balizas. Pequenos relvados acolhiam torneios de berlindes e versões improvisadas de apanhada, “presos na lama” ou “bulldog”.
Não havia treinadores organizados, nem ligas ao sábado com equipamento a condizer, e muito menos troféus de participação. As crianças mais velhas faziam as regras, muitas vezes a seu favor, e as mais novas aprendiam depressa a negociar ou a resistir.
O tempo raramente parava alguma coisa. Chuva significava escorregar na lama. Frio significava correr mais. O fim da brincadeira não era uma recolha marcada; era o brilho dos candeeiros ou o grito distante de um pai ou de uma mãe a ecoar pela rua.
Criar jogos e mundos a partir de quase nada
Com poucos brinquedos e sem um fluxo constante de conteúdo digital, muitos jogos eram inventados no momento. Uma bola e uma parede chegavam para encher uma tarde. Um pedaço de giz podia transformar o alcatrão numa macaca, numa pista de corridas ou num reino imaginário.
O tédio, longe de ser uma crise, era a matéria-prima da invenção.
As crianças construíam esconderijos com restos de madeira, tentavam feitos de engenharia duvidosos como jangadas improvisadas e lançavam economias complexas de trocas baseadas em autocolantes, berlindes ou cromos. As regras eram escritas, testadas e reescritas em tempo real, geralmente sem um único adulto saber ou querer saber.
- Uma rua tinha a sua própria versão de esconde-esconde com “bases” secretas.
- Outra especializava-se em corridas de bicicleta por cima de lombas e rampas improvisadas.
- Prédios escondiam locais lendários para trocar cromos de futebol.
Essas variações locais criavam pequenas culturas: numa zona, um determinado jogo podia ser famoso; três ruas ao lado, ninguém tinha ouvido falar dele.
Lidar com conflitos sem árbitros adultos
Zaragatas, desentendimentos e sentimentos magoados eram inevitáveis. O que era diferente era a expectativa de que as crianças tratavam da maioria deles sozinhas.
Um golo polémico, uma suspeita de batota, um insulto duro - tudo podia acabar em lágrimas, amuos ou alguém a ir embora com a bola. Mas, no dia seguinte, o mesmo grupo geralmente voltava a juntar-se, tendo remendado as coisas sem mediação de professores ou pais.
As crianças aprendiam cedo que as amizades sobrevivem a desculpas imperfeitas e que ter razão pode, ainda assim, significar brincar sozinho.
Isto não eliminava o bullying ou danos graves, que existiam então como existem agora. Ainda assim, as discordâncias do quotidiano davam às crianças treino em negociação, compromisso e perdão num nível cru e sem guião, mais raro quando os adultos intervêm cedo e frequentemente.
Porque é que essas liberdades desapareceram
Os anos 80 e 90 não foram uma idade de ouro da segurança; acidentes de viação, crime e negligência eram reais. O que mudou foi a consciência e a perceção.
| Fator | Antes | Agora |
|---|---|---|
| Tecnologia | Telefones fixos, sem rastreio, sem telemóveis | Smartphones, GPS, mensagens constantes |
| Expectativas parentais | “Volta antes de escurecer” | Contactos regulares, atividades supervisionadas |
| Trânsito e desenho urbano | Ruas mais tranquilas, menos carros por família | Trânsito mais intenso, veículos maiores |
| Normas sociais | Crianças desacompanhadas vistas como normal | Pode gerar preocupação ou participações oficiais |
A cobertura mediática amplifica eventos raros mas chocantes, alimentando a sensação de que uma infância sem supervisão equivale a perigo, mesmo quando as estatísticas de criminalidade nem sempre sustentam esse sentimento. Ao mesmo tempo, o entretenimento digital em casa tornou-se tão apelativo que muitas crianças precisam de ser convencidas a ir para a rua.
Como poderia ser um meio-termo moderno?
Pais que cresceram nessas décadas mais livres muitas vezes sentem-se divididos. Lembram-se da emoção de andar à solta, mas veem estradas mais movimentadas, vidas mais ocupadas e ecrãs mais persuasivos do que tudo o que conheciam.
Algumas famílias experimentam uma “liberdade gradual”: pequenas responsabilidades locais que crescem com o tempo. Isso pode começar com a criança a andar sozinha um quarteirão, ou a ir à loja da esquina com um irmão, ou a brincar num parque próximo enquanto um adulto fica a uma distância de chamada em vez de manter sempre a criança à vista.
Termos como “parentalidade free-range” descrevem esta abordagem. A ideia não é recriar os anos 80, mas dar às crianças oportunidades adequadas à idade para tomar decisões, assumir riscos menores e lidar com o tédio que leva à criatividade, sem abandonar totalmente as salvaguardas.
Também existem equivalentes modernos das antigas liberdades. Jogos online e chats de grupo, por exemplo, dão às crianças espaços para criarem as suas próprias regras e alianças, mesmo que os adultos por vezes tenham dificuldade em compreender esses mundos. Essas zonas digitais trazem riscos diferentes - do uso excessivo de ecrãs ao bullying online - mas também desenvolvem competências de comunicação, colaboração e literacia digital que as gerações anteriores não tinham.
Uma pergunta útil para qualquer pai, mãe ou cuidador não é apenas “Isto é seguro?”, mas “Que competência é que o meu filho está a desenvolver aqui?” Andar pelas ruas ensinava orientação, coragem e julgamento social. Navegar a vida digital de hoje ensina outras capacidades, desde filtrar informação até gerir comunicação constante. O desafio é combinar ambas, deixando espaço para joelhos esfolados e conversas embaraçosas à porta de casa, sem ignorar os riscos reais que nem sempre preocupavam os adultos nos anos 80 e 90.
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