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6 hábitos antigos que quem tem 60 ou 70 anos mantém e que os tornam mais felizes do que os jovens obcecados pela tecnologia.

Casal idoso caminha alegremente segurando jornal e café, com pessoas em mesas ao fundo, em rua arborizada.

Late na manhã de domingo, num subúrbio sossegado, o banco do parque parece um campo de batalha entre gerações. De um lado, dois adolescentes curvados sobre os telemóveis, polegares a tocar freneticamente. Do outro, uma mulher de cabelo grisalho, num corta-vento vermelho, sentada direita, com o jornal dobrado com cuidado e um termo de café aos pés. Olha em volta, observa as árvores, sorri quando passa um cão. Os miúdos nunca levantam os olhos.

Uma pequena divisão, quase invisível, estende-se entre eles.

Ela parece mais lenta, mas, estranhamente, também parece… mais leve.

1. Telefonar em vez de enviar mensagens - e ouvir de verdade

Pergunte a qualquer pessoa com mais de 65 anos o que é “manter contacto” e não lhe vai mostrar o último truque no WhatsApp. Vai dizer-lhe a quem telefonou esta semana. Para muitos, o telefone continua a ser um aparelho de voz, não apenas uma máquina de notificações.

Sentam-se à mesa da cozinha, marcam um número de memória e deixam a conversa divagar. O tempo, a saúde, o cão do vizinho, uma recordação antiga que de repente vem à tona. Não há pressa. Não há pressão para ser engraçado em três segundos. Apenas dois seres humanos, a respirar nas pausas um do outro.

Um eletricista reformado, nos seus primeiros 70 anos, contou-me que ainda liga ao melhor amigo todas as quartas-feiras às 17h. Começou quando faziam turnos da noite juntos, nos anos 80. Agora vivem a 600 quilómetros de distância, quase não viajam, mas aquela chamada não se negocia.

“Às vezes falamos dez minutos, às vezes uma hora”, encolheu os ombros. “Mas quando desligo, sinto-me menos sozinho.”

Sem vistos azuis, sem a neurose do “visto 14:37”. Só o conforto de uma voz que conhece o seu passado e ainda quer ouvir o seu presente.

Há uma razão para este hábito os deixar mais calmos. O cérebro humano lê o tom, o ritmo, as pequenas hesitações de uma forma que nenhum emoji consegue substituir. A conversa por voz dá-lhe feedback emocional imediato: ouve o suspiro, a gargalhada, o silêncio longo antes de uma resposta honesta.

As mensagens tornam-nos eficientes. A voz torna-nos ligados. As pessoas mais velhas, que cresceram com telefones fixos e chamadas interurbanas que custavam dinheiro, tratam a conversa como algo a que se dá tempo, não como algo que se encaixa entre duas notificações.

Sejamos honestos: ninguém se sente verdadeiramente compreendido num chat de grupo.

2. Caminhar sem auscultadores - e deixar o mundo entrar

Veja uma pessoa de 70 anos a ir à padaria. Sem auriculares. Sem app de monitorização aberta, sem objetivo de passos a piscar no ecrã. Apenas um casaco, um saco, talvez um chapéu se o vento estiver agreste. A caminhada não é “cardio”; é simplesmente a forma como se desloca ao longo do dia.

Repara na tinta lascada da vedação que não estava assim na semana passada. Acena ao guarda da passadeira. Para para fazer festas ao mesmo gato que manda naquele degrau há doze anos. O mundo não é só um fundo para a sua playlist. O mundo é a playlist.

Uma mulher no fim dos 60 contou-me que faz a mesma caminhada de 20 minutos todas as manhãs, à volta do quarteirão e passando por um pequeno jardim. Não cronometra. Não mede a frequência cardíaca. Apenas caminha.

Um dia sentiu um cheiro a jasmim tão forte que parou a meio. Noutro, viu um rapaz a praticar truques de skate sozinho e aplaudiu quando ele finalmente conseguiu um. Ele sorriu, surpreendido por alguém o ter visto.

“Estas coisas pequeninas”, disse ela, “lembram-me que faço parte de algo que ainda está vivo.”

Os investigadores têm um nome para isto: “fascínio suave” (soft fascination). Quando o cérebro absorve detalhes leves e imprevisíveis do ambiente, descansa e reinicia ao mesmo tempo. Pássaros, montras, a forma como a luz bate numa poça.

Não se consegue isso com os ouvidos selados e os olhos colados a um ecrã a contar calorias. As gerações mais velhas cresceram com a caminhada como padrão, não como performance. Isso tira pressão. A caminhada não tem de impressionar. Tem apenas de existir.

O mundo já é suficientemente barulhento; nem toda a gente precisa de uma banda sonora por cima.

3. Ler em papel - e escapar ao scroll infinito

Há um som particular quando se vira a página de um jornal. Um estalido suave, o arrastar do dedo ao longo da dobra. As pessoas nos 60 e 70 muitas vezes mantêm-se fiéis a esse som. Ainda compram um jornal em papel ou requisitam livros na biblioteca, enquanto os mais novos passam os olhos por títulos no TikTok e nunca chegam ao terceiro parágrafo.

Sentam-se numa poltrona, com o telemóvel virado para baixo na mesa de centro, os óculos a meio do nariz. O momento alonga-se. Sem pop-ups. Sem reprodução automática. Apenas uma história de cada vez, sem um algoritmo a intrometer-se para recomendar “algo de que também poderá gostar antes sequer de ter gostado da primeira coisa”.

Uma enfermeira reformada que conheci mostrou-me, com orgulho, o cartão da biblioteca, gasto nas bordas. Vai lá todas as terças-feiras, uma rotina que começou quando os filhos eram pequenos e o dinheiro era curto. Na altura, a biblioteca era entretenimento gratuito. Agora, diz que é “oxigénio mental”.

Requisita três livros: um romance, uma biografia e um livro “útil” sobre jardinagem ou cozinha. Mantém-nos na mesa de cabeceira. Quando a insónia a cutuca às 3 da manhã, abre um livro em vez de pegar no telemóvel. “Se vou ao telemóvel, é como cair num buraco”, disse-me. “Com um livro, consigo trepar para fora.”

Os ecrãs fragmentam a atenção. O papel volta a juntá-la. Os leitores mais velhos vivem com tecnologia mais lenta, por isso a sua paciência cresceu noutro tipo de terreno. Estão habituados a esperar uma semana pela próxima edição da revista. Esse ritmo reduz a pressão constante de acompanhar tudo, o tempo todo.

Ler um livro em papel também tem um princípio e um fim claros. Fecha-se a capa e acabou. Sem scroll infinito, sem a armadilha do “Também poderá gostar”. Para mentes nervosas e sobre-estimuladas, esse limite claro é ouro.

Uma verdade simples está por baixo de tudo isto: os nossos cérebros não foram feitos para feeds sem fim.

4. Manter rituais - café às 10, jantar às 7, aconteça o que acontecer

Pergunte a uma pessoa de 70 anos o que vai fazer às 10h, num dia de semana, e muitas vezes terá a mesma resposta. Café. Palavras cruzadas. Talvez um programa de rádio que segue desde os anos 90. Os rituais mantêm os dias unidos como uma costura invisível.

Há conforto em saber que, faça chuva ou toque um alerta de notícias, o café de meio da manhã vai acontecer na mesma. Nada de doomscrolling antes do primeiro gole. Nenhuma chamada no Zoom a invadir aquele espaço sagrado. Apenas a pequena cerimónia de ferver água, mexer o açúcar, dobrar o jornal exatamente na coluna certa.

Conheci um casal, nos seus primeiros 70 anos, que ainda janta à mesa às 19h em ponto. Sem televisão. Sem telemóveis à vista. O hábito começou quando os filhos eram pequenos. Quando os filhos saíram de casa, os pais mantiveram o ritual para si.

Põem individuais, acendem uma vela pequena no inverno e falam do dia, mesmo que “o dia” tenha sido só uma ida à farmácia e uma chamada de um primo. Nas noites em que discutem, sentam-se na mesma às 19h. O ritual não resolve tudo, mas mantém o fio inteiro.

A vida moderna adora flexibilidade. Mude os planos instantaneamente, reagende com um toque, coma quando estiver “livre”. As gerações mais velhas cresceram num mundo em que os autocarros saíam às 8:02 e as lojas fechavam às 18h em ponto. Isso gerou um respeito silencioso pela regularidade.

A rotina baixa a ansiedade porque remove mil microdecisões. Comer agora ou mais tarde? Fazer scroll ou conversar? Cozinhar ou mandar vir? Para muitas pessoas nos 60 e 70, a decisão já está tomada pelo hábito. A energia que seria queimada a escolher fica disponível para viver.

“Os rituais são a estrutura que nos segura quando não sabemos muito bem como nos segurar a nós próprios”, disse-me baixinho um viúvo de 69 anos, com as mãos à volta da sua caneca lascada.

  • Bebida da manhã sempre à mesma hora
  • Caminhada diária num percurso conhecido
  • Uma chamada regular a um amigo ou irmão/irmã
  • Refeições partilhadas à mesa, não no sofá
  • Atividade semanal “âncora”: mercado, biblioteca, igreja, clube

5. Falar com desconhecidos - e pertencer a um lugar

Se alguma vez observou uma pessoa mais velha numa paragem de autocarro, já viu isto. Duas frases sobre o tempo, um comentário sobre o atraso do autocarro, e de repente estão a falar de netos, joelhos ou do preço das batatas. Para muita gente com mais de 60, a conversa de circunstância não é constrangedora. É sobrevivência.

Cresceram numa altura em que os bairros eram comunidades reais, não apenas códigos postais partilhados. As portas ficavam abertas. Pedia-se açúcar emprestado. Sabia-se quem vivia em cima, em baixo, ao lado. Esse hábito de contacto leve e fácil não desapareceu só porque chegaram os smartphones.

Um homem a meio dos 60 contou-me que se senta de propósito no mesmo banco, na mesma praça, todas as tardes por volta das 16h. No início, ninguém reparou. Ao fim de um mês, um cão começou a vir ter com ele para umas festas. Ao fim de três, outro habitué começou a sentar-se ao lado de vez em quando.

Agora há um “clube do banco” não dito: três reformados, um estafeta em pausa, uma mãe jovem com carrinho de bebé. Não trocam números de telefone. Apenas conversam, queixam-se, riem e depois voltam para as suas vidas. “Não preciso de mais amigos online”, disse ele. “Preciso destes humanos de cinco minutos.”

A vida digital torna fácil filtrar desconhecidos. Segue quem gosta, silencia quem irrita, e constrói uma bolha apertada de pessoas que pensam como você. Parece seguro, mas também encolhe o seu mundo.

As pessoas mais velhas que ainda conversam na fila da padaria recebem pequenas doses de novidade todos os dias. Uma opinião nova. Um sotaque diferente. Uma dica de receita. Estas micro-ligações não aparecem numa lista de seguidores, mas alimentam a mesma fome: a de nos sentirmos vistos.

Muitos jovens obcecados por tecnologia têm contactos globais, mas não têm calor local.

6. Fazer uma coisa de cada vez - e deixar a aborrecimento respirar

Veja alguém nos 70 a descascar batatas. É quase radical. Senta-se, faca na mão, tigela ao colo. Sem podcast nos ouvidos, sem série em fundo, sem “multitarefa produtiva”. Apenas descascar, rodar, descascar, largar. O ritmo é lento, mas constante.

Não lhe chamam mindfulness. Para eles, é só… vida. Uma coisa a seguir à outra. Cozinhar, depois comer, depois arrumar. Não responder a e-mails enquanto mexe o molho. Não mandar mensagens a três pessoas enquanto ouve a meio um vídeo. Há uma solidez nessa forma linear de atravessar o dia.

Uma antiga secretária, de 72 anos, riu-se quando lhe perguntei se fazia multitarefa. “Passei quarenta anos a atender telefones, a escrever cartas e a arquivar ao mesmo tempo”, disse. “Já fiz a minha parte. Agora gosto de dar às coisas a minha atenção inteira, uma a uma.”

À noite, faz malha enquanto o rádio murmura. Quando se sente inquieta, não abre dez separadores. Rega as plantas. Se não há nada para fazer, senta-se na varanda e simplesmente… senta-se. “Às vezes aborreço-me”, admitiu. “Depois chega uma ideia.”

As gerações mais novas são ensinadas a ver o aborrecimento como um problema a resolver de imediato. Tocar, fazer scroll, atualizar. O mais pequeno segundo vazio tem de ser preenchido. O problema é que a criatividade e a digestão emocional acontecem nesses segundos vazios.

As pessoas mais velhas que se sentem confortáveis a fazer apenas uma coisa de cada vez acabam por dar ao cérebro pausas reais. Essas pausas muitas vezes sabem a paz. Às vezes sabem a tristeza também - mas pelo menos há espaço para ela passar.

Há uma coragem silenciosa em não fugir de cada momento aborrecido com um ecrã.

O que os seus “hábitos antigos” nos estão realmente a dizer

Visto de longe, estes hábitos à antiga parecem quase suspeitos de tão simples. Telefonar a alguém. Caminhar sem auscultadores. Ler em papel. Manter rituais. Falar com desconhecidos. Fazer uma coisa de cada vez. Nada disto impressionaria um guru da produtividade.

E, no entanto, vezes sem conta, quando se senta com pessoas nos 60 e 70 e as ouve a sério, são estas as coisas que dizem proteger o seu estado de espírito. Não a aplicação mais recente. Não o telemóvel mais novo. Um punhado de gestos silenciosos e repetidos que ancoram os seus dias a algo mais profundo do que a próxima notificação.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que levanta os olhos do ecrã e se pergunta para onde foi a última hora, ou porque se sente estranhamente vazio depois de “se ligar” a dezenas de pessoas online. Os mais velhos nas nossas vidas não são necessariamente mais sábios em tudo. Mas viveram o suficiente para ver o que fica e o que se desvanece.

Os seus hábitos sobreviveram precisamente porque oferecem algo que nenhum dispositivo consegue replicar por completo: a sensação lenta e teimosa de pertencer à sua própria vida.

Talvez a verdadeira pergunta não seja porque é que eles não largam estes hábitos. É o que poderíamos ganhar se, discretamente, voltássemos a pegar em alguns deles.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Voz em vez de texto Chamadas telefónicas regulares, conversas menos frequentes mas mais profundas Ligações mais fortes, menos ansiedade com mensagens
Rituais e rotinas Horas fixas para café, refeições, caminhadas, visitas à biblioteca Menos stress, mais estabilidade e segurança emocional
Vida de tarefa única Fazer uma coisa de cada vez, aceitar o aborrecimento Mente mais clara, mais criatividade, sistema nervoso mais calmo

FAQ:

  • Porque é que as pessoas mais velhas parecem mais felizes com menos tecnologia? Muitas vezes usam a tecnologia como ferramenta, em vez de estilo de vida. Os seus dias continuam construídos à volta de ritmos humanos - chamadas, caminhadas, rotinas - por isso a felicidade não depende de notificações ou validação online.
  • As pessoas mais novas podem mesmo adotar estes hábitos sem “ficar para trás”? Sim. Não precisa de abandonar a tecnologia; basta criar pequenos espaços protegidos de vida à antiga: uma chamada por semana, uma caminhada sem auscultadores, uma refeição por dia sem tecnologia.
  • Isto não é apenas nostalgia pelo passado? Parte disto é, claro, colorida pela memória, mas muitos destes hábitos são apoiados por investigação atual sobre atenção, saúde mental e ligação social. Velho não significa automaticamente desatualizado.
  • Qual é o hábito mais fácil para começar? A maioria das pessoas acha mais simples fazer uma caminhada diária sem o telemóvel na mão. Só 15–20 minutos a olhar em volta em vez de olhar para baixo já muda a forma como o resto do dia se sente.
  • Como mantenho estes hábitos quando o meu trabalho é muito online? Pense neles como âncoras, não como regras. Mesmo com um trabalho pesado em ecrã, pode ancorar o dia com rituais offline antes e depois do trabalho e garantir pelo menos uma conversa por voz com significado por semana.

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