O outro dia, vi um homem nos seus finais de sessenta anos a arranjar, com toda a calma, um corta-relva avariado no passeio. Sem tutorial do YouTube. Sem pesquisas frenéticas no Google. Apenas um pano, uma chave de fendas e aquele tipo de concentração silenciosa que já raramente se vê em público. À volta dele, as pessoas passavam, a fazer scroll, meio a ouvir podcasts, meio a responder a e-mails. Parecia viver noutro ritmo, como se tivesse trazido consigo uma década mais lenta para dentro de 2026.
Mais tarde, soube que tinha crescido nos anos 70.
Os psicólogos dizem que essa era deixou marcas que não desaparecem facilmente.
Algumas são forças mentais de que, hoje, sentimos falta em silêncio.
E, assim que começas a repará-las, já não consegues deixar de as ver.
1. A resiliência dura e elástica
As pessoas que cresceram nos anos 60 e 70 encontraram a frustração cedo, sem a rede de segurança do entretenimento constante. A televisão acabava à noite, os telefones estavam presos às paredes da cozinha e, se um amigo não aparecia no parque, esperavas - ou ias para casa sozinho. Não “desistias à bruta” da vida por causa de um pequeno incómodo; adaptavas-te.
Os psicólogos chamam a isto inoculação ao stress: pequenas doses de desconforto que treinam o cérebro a não entrar em pânico ao primeiro sinal de problema. Essa geração fazia filas, poupava, reparava, aguentava viagens de carro aborrecidas sem ecrãs. Com o tempo, esta fricção do dia a dia ensinou-lhes uma lição discreta: nem todos os sentimentos precisam de uma solução imediata. Alguns sentimentos simplesmente passam.
Pergunta a alguém que tenha sido criado em 1973 sobre a infância e vais ouvir histórias deste género: “Quando o carro avariava, encostávamo-lo à berma. O meu pai praguejava e depois resolvia. Ficávamos ali uma hora, só à espera.” Ninguém lhe chamava “regulação emocional” na altura. Era apenas a vida.
Hoje, muitos psicólogos estão alarmados com o quão pouca frustração de baixo nível as crianças experimentam. Um inquérito de 2023 na Europa descobriu que os pais intervinham em 70% dos pequenos conflitos dos filhos com amigos. Para boomers e a primeira vaga da Geração X, esse número teria sido impensável. Eles discutiam, amuavam, faziam as pazes e voltavam a brincar. As nódoas negras emocionais saravam e, com elas, vinha uma força silenciosa e duradoura.
A lógica é simples: quando a vida te diz “não” com regularidade, o teu cérebro aprende dois movimentos poderosos. Primeiro: “Eu sobrevivo a isto.” Segundo: “Há outra maneira?” Isto é o núcleo da resiliência psicológica. Não é ser estoico e calado; é recuperar sem drama.
Hoje, quando algo não resulta à primeira, muitos de nós mudamos logo de contexto: uma nova app, um novo emprego, uma nova relação. Quem cresceu nos anos 60 e 70 costuma ter outra resposta por defeito: “Vamos tentar outra vez, de forma diferente.” Esse hábito, construído sobre milhares de pequenas frustrações da infância, é agora raro ao ponto de quase parecer um superpoder.
2. A arte perdida de esperar e planear
Uma força mental subestimada dessa geração é o que os psicólogos por vezes chamam gratificação diferida. Traduzido para a vida real: querias uma coisa, esperavas. Aniversários, Natal, meses a juntar dinheiro da mesada. Não havia botão de “Comprar já”, nem entregas no próprio dia.
Se eras adolescente em 1978 e adoravas uma banda, esperavas pelo vinil. Gravavas músicas da rádio, com o dedo a pairar sobre o botão de gravar. Esse período de antecipação não era tempo vazio. Era treino mental. O teu cérebro aprendia a sustentar um desejo, a planear à volta dele, a desfrutar do caminho até o alcançar.
Imagina uma criança de 12 anos em 1969 a poupar para uma bicicleta. Vai empilhando moedas num frasco, talvez faça uma ronda de distribuição de jornais, diz que não aos rebuçados na mercearia da esquina. Cada pequena decisão tem peso. No dia em que finalmente anda de bicicleta, a satisfação fica ligada profundamente ao sistema nervoso: esforço → paciência → recompensa.
Compara isto com um cenário moderno: clicar, pagar, seguir a encomenda. O objecto aparece antes de o desejo ter amadurecido por completo. Estudos sobre nativos digitais mostram menor tolerância a atrasos e picos mais altos de stress quando as apps bloqueiam ou as entregas se atrasam. Para as crianças dos anos 60 e 70, “atrasado” era muitas vezes o padrão. Moldavam as expectativas à realidade - e não o contrário.
Psicologicamente, este padrão constrói dois músculos: controlo do impulso e pensamento de longo prazo. Quando estás habituado a esperar meses por algo que queres, o teu cérebro fica bom a segurar uma imagem do futuro sem desistir. É a mesma competência de que precisas para poupar para a reforma, estudar para um curso, ou trabalhar numa relação para lá da fase de lua-de-mel.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas quem cresceu antes da era da gratificação instantânea permanente teve mais repetições, mais prática a tolerar aquela comichão do “ainda não”. Num mundo que vende o “agora” como o único calendário aceitável, essa paciência silenciosa tornou-se estranhamente rara - e incrivelmente preciosa.
3. Foco profundo num mundo barulhento
Se falares com alguém que cresceu nos anos 70 sobre os trabalhos de casa, muitas vezes dirá algo surpreendentemente simples: “Sentávamo-nos à mesa e fazíamo-los.” Sem Wi‑Fi, sem feeds, sem vibração de notificações. As distracções existiam, claro, mas eram físicas e limitadas. Podias fechar-lhes a porta.
Essa era construiu aquilo a que os psicólogos hoje chamam atenção sustentada: a capacidade de permanecer com um livro, um problema, uma conversa, por mais tempo do que alguns swipes. Para muitas crianças dos anos 60/70, o tédio era normal - e o tédio é a porta de entrada para o foco. Quando a mente deixa de procurar novidade, começa a ir mais fundo.
Imagina um adolescente em 1975 deitado na cama com uma única revista. Lê, relê, olha para o tecto, pensa. Não há mais nada para verificar. Não existe um fluxo alternativo de estimulação a piscar a um toque de distância. Esse espaço vazio à volta da actividade permite que a mente faça ligações, imagine, sonhe acordada.
Estudos modernos sobre a atenção mostram que nativos digitais mudam de tarefa aproximadamente a cada 30–45 segundos no ecrã. Pessoas que cresceram antes da internet ainda apresentam, em média, períodos naturais de foco mais longos, sobretudo a ler ou a fazer trabalho manual. Não é magia; é memória muscular. Os seus cérebros foram “cablados” num ambiente em que ficar numa coisa era o padrão, não a excepção.
A psicologia por trás disto é brutal, mas simples: o que repetes, fortaleces. Se passas a infância constantemente interrompido, a tua mente aprende a esperar interrupção. Se a passas a acabar puzzles, a ler capítulos longos, a esperar pelos anúncios na televisão, a tua mente aprende resistência.
Isto não significa que as pessoas dos anos 60 e 70 sejam imunes ao doomscrolling. Também se viciam. Mas muitas delas ainda conseguem “entrar” nesse modo antigo: rádio desligado, telemóvel em cima da mesa, mãos na terra, olhos na página. Essa mudança mental - a capacidade de ficar quieto e profundo - está a começar a parecer uma competência vintage rara num século hiperligado.
4. Confiança silenciosa para lidar com o mundo real
Há outra força que muitas vezes passa despercebida: uma autoconfiança prática, assente na terra. Não é fanfarronice, nem bravata de redes sociais, mas uma sensação sentida de “eu provavelmente consigo resolver isto”. Os psicólogos ligam isto à auto-eficácia - a crença de que as tuas acções podem mudar a tua situação.
Crescer nos anos 60 e 70 significava lidar com mais coisas com as próprias mãos. Ias a pé para a escola. Arranjavas a corrente da bicicleta. Ligavas para um número e esperavas que alguém atendesse. Cada pequeno sucesso construía um banco de dados no cérebro: “Eu agi; algo mudou.” Ao longo dos anos, isso torna-se um recurso interno profundo: confiança na própria agência.
Pensa numa criança de 10 anos em 1972 enviada à loja com uma lista e um bilhete. Fala com o caixa, mexe em dinheiro, talvez tenha de lidar com um produto esgotado. Há risco - pequeno, mas real. Adultos hoje descrevem muitas vezes essa era com uma mistura de nostalgia e incredulidade: “Nós simplesmente saíamos depois do pequeno-almoço e voltávamos quando as luzes da rua acendiam.”
A psicologia moderna está cada vez mais preocupada com as chamadas “infâncias sobreprotegidas”. Quando tudo é pré-organizado e supervisionado, as crianças têm menos oportunidades de se viverem como agentes capazes. A geração dos anos 60/70 teve o oposto: menos supervisão, mais tentativa e erro. O resultado, visível agora nas suas décadas posteriores, é uma espécie de confiança operacional silenciosa.
Claro que nem todas as pessoas dessa época se sentem fortes ou seguras. Muitas carregam as suas próprias feridas. Ainda assim, repetidamente, terapeutas notam um padrão: perante um problema concreto - uma fuga de água, uma conta, um caos de papelada - muitos deles avançam para a acção antes do pânico. Tiveram décadas de repetições de “desenrascar-se”.
Um psicólogo com quem falei resumiu-o de forma incisiva:
“As pessoas que cresceram nessa altura muitas vezes subestimam o quão rara é a sua competência do dia a dia. Chamam-lhe ‘é só seguir em frente’. Essa mentalidade já não é comum.”
- Cresceram a resolver problemas da vida real
- Navegaram pelo mundo sem orientação constante
- Aprenderam que os erros eram sobrevivíveis
- Construíram auto-confiança a partir de milhares de pequenas acções
- Hoje, essa coragem quotidiana parece quase extraordinária
5. Lealdade emocional e relações de longa duração
Há uma última força, mais silenciosa, que muitos psicólogos notam nas pessoas que atingiram a idade adulta nessas décadas: uma lealdade que não faz barulho, mas dura. As relações - amizades, casamentos, comunidades - eram mais difíceis de abandonar e mais fáceis de reparar. Sem ghosting, sem bloquear, sem desaparecer atrás de um ecrã. Se te chateasses com alguém, era muito provável que voltasses a vê-lo. Tinhas de falar.
Essa era normalizou ficar na sala quando as coisas ficavam desconfortáveis. Não tinhas cinquenta círculos de reserva à espera online. Tinhas a tua rua, a tua escola, o teu trabalho, o teu café do bairro. Sair era possível, claro, mas era grande. Por isso, as pessoas tendiam a negociar, ajustar, perdoar.
Todos já passámos por aquele momento em que apetece bater com a porta emocional e desaparecer. Alguém criado nos anos 70 pode sentir o mesmo impulso, mas o reflexo costuma ser diferente: ligam, escrevem, aparecem. Muitos viveram divórcios, despedimentos, tensão política, mas o guião por defeito era: “Falamos sobre isto.”
As apps de encontros, o trabalho remoto e os feeds algorítmicos tornam incrivelmente fácil rodar pessoas para fora da nossa vida. Os psicólogos chamam a isto “descartabilidade relacional”. A força mental que as crianças dos anos 60/70 treinaram por acidente é quase o oposto: vêem o conflito não como um sinal para sair, mas como um convite para renegociar o vínculo. Não quer dizer que nunca vão embora; quer dizer que, normalmente, tentam primeiro.
Esta mentalidade de longo curso assenta em várias outras forças que construíram: resiliência ao desconforto, paciência, foco, auto-eficácia. Em conjunto, cria uma competência emocional rara: ficar. Ficar numa conversa difícil. Ficar durante uma fase aborrecida. Ficar enquanto alguém de quem gostas não está no seu melhor.
Numa cultura que valoriza a liberdade pessoal e opções infinitas, isto pode parecer antiquado, até ingénuo. E, no entanto, quando perguntas a pessoas mais novas o que desejam secretamente nas relações, muitas descrevem exactamente isto: alguém que não desaparece ao primeiro solavanco. A geração dos anos 60 e 70, com todas as suas falhas, ainda carrega esse modelo no sistema nervoso. Transmiti-lo pode ser um dos presentes silenciosos que dá ao resto de nós.
O que esta “cablagem” mais antiga pode ensinar ao resto de nós
Nenhuma destas forças pertence em exclusivo a quem cresceu nos anos 60 e 70. Podes ter 20 anos hoje e treinar resiliência, paciência, profundidade de foco, coragem quotidiana e lealdade de longo curso. A questão é apenas esta: essas décadas antigas tornavam estas características quase inevitáveis. O mundo de hoje faz o contrário. Tens de lutar por elas.
É aí que a geração mais velha se torna inesperadamente preciosa. Não como autoridades morais a apontar o dedo, mas como arquivos vivos de um ritmo de vida diferente. Quando um vizinho mais velho cozinha calmamente de raiz, ou quando os teus pais se recusam a entrar em pânico por um pagamento atrasado, estás a ver décadas de treino psicológico em acção.
Há aqui uma oportunidade discreta. Em vez de discutir apenas qual era a melhor era, podíamos tratar estas forças mentais como relíquias de família. Perguntar: como lidavas com o medo quando não havia internet? O que fazias quando te sentias sozinho em criança? Como poupavas para algo grande?
Por trás da nostalgia e das histórias, há técnicas. Há hábitos. Micro-rituais invisíveis que moldaram as suas mentes. Ficar com o tédio em vez de fugir dele. Reparar em vez de substituir. Falar em vez de desaparecer. Não são actos heróicos. São movimentos pequenos e repetíveis. E, do ponto de vista psicológico, é aí que a mudança real começa sempre.
O mundo que os nossos pais e avós conheceram nunca vai voltar. O ritmo mudou para sempre. No entanto, os músculos mentais que eles construíram dentro desse mundo mais lento ainda estão disponíveis para nós. Podemos pedi-los emprestados, aprendê-los, misturá-los com as nossas ferramentas e os nossos problemas.
Se conheces alguém que cresceu nos anos 60 ou 70, observa-o durante um dia. Repara no que não apressa. Repara no que não teme. Depois pergunta-lhe como ficou assim. Há uma boa hipótese de a resposta não soar a psicologia. Vai soar apenas a vida.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Resiliência e tolerância à frustração | Crescer com mais limites e menos soluções instantâneas treinou as pessoas a recuperar de contratempos | Ajuda-te a repensar como lidas com irritações diárias e falhas maiores |
| Paciência e gratificação diferida | Esperar por recompensas “cablou” o cérebro para esforço e planeamento de longo prazo | Dá-te um modelo para construir poupanças, competências e relações estáveis |
| Foco profundo e autoconfiança prática | Menos distracções digitais e mais resolução de problemas no mundo real construíram atenção forte e auto-eficácia | Mostra como reconstruir hoje a concentração e a confiança nas tuas capacidades |
FAQ:
- Pergunta 1: As pessoas que cresceram nos anos 60 e 70 são “melhores” do que as gerações mais novas?
- Resposta 1: Não. Foram moldadas por condições diferentes que favoreceram forças específicas. As gerações mais novas têm as suas próprias competências únicas, sobretudo em criatividade, inclusão e adaptabilidade.
- Pergunta 2: Alguém nascido depois de 1990 pode desenvolver as mesmas forças mentais?
- Resposta 2: Sim. A psicologia mostra que estes traços são treináveis em qualquer idade. Só tens de recriar algumas das condições: mais tédio, mais resolução de problemas, menos soluções instantâneas.
- Pergunta 3: Como posso construir melhor resiliência no dia a dia?
- Resposta 3: Começa com actos pequenos: termina a tarefa antes de veres o telemóvel, espera 24 horas antes de compras por impulso, trata de uma tarefa chata sem a delegares. As pequenas repetições contam mais do que esforços heróicos raros.
- Pergunta 4: O que podem os pais aprender com a abordagem dos anos 60/70 à infância?
- Resposta 4: Permitir riscos e frustrações geríveis. Deixar as crianças andar pequenas distâncias sozinhas, resolver conflitos menores com amigos e experimentar a espera. A segurança continua a importar, mas a autonomia também.
- Pergunta 5: A nostalgia está a distorcer a forma como vemos essa geração?
- Resposta 5: Há sempre alguma nostalgia em jogo, e essas décadas também tiveram problemas sérios. O objectivo não é idealizar o passado, mas identificar forças psicológicas específicas que são mensuráveis e ainda úteis hoje.
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