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Um “fóssil vivo”: mergulhadores franceses fotografam pela primeira vez uma espécie emblemática nas águas da Indonésia.

Mergulhador com câmara observa peixe nadando perto de corais no fundo do mar.

O grito do motor do barco extingue-se à medida que o crepúsculo se instala sobre a costa indonésia. O mergulhador francês Léo ajusta a máscara pela última vez, com o ar ainda quente na pele e o mar já negro e sem fundo. Deixa-se cair para trás na água e, de repente, o mundo encolhe para o fino feixe da sua lanterna e para o som da própria respiração.
A dois metros da parede rochosa, algo vasto agita-se na escuridão.

Um flanco pesado, azulado, desprende-se lentamente do penhasco, salpicado de pequenos pontos branco-pálidos. Uns grandes olhos amarelos voltam-se para ele, quase aborrecidos, quase ancestrais. Léo fica imóvel, com todos os exercícios de treino a evaporarem-se-lhe da mente. Ele sabe o que está a ver.

A flutuar à sua frente está um fóssil vivo.

E a câmara dele está mesmo a funcionar.

Um fantasma das profundezas, finalmente captado pela câmara

O primeiro clique seco da câmara soa estranhamente alto no silêncio denso a 40 metros de profundidade. A criatura não foge. Limita-se a rodar, naquele modo lento e régio de animais que nunca tiveram predadores a temer. É um celacanto, o peixe que a ciência declarou extinto durante 65 milhões de anos e que, depois, foi milagrosamente redescoberto em 1938.

Mergulhadores franceses sonham há décadas em encontrar um nas águas indonésias. Nessa noite, num cânion rochoso ao largo de Sulawesi do Norte, o sonho torna-se real: uma série de fotografias cristalinas da espécie emblemática a patrulhar o recife, muito viva, muito indiferente ao espanto humano.

Durante anos, os celacantos desta região existiram como rumores e silhuetas desfocadas. Pescadores em Manado e Ternate contavam histórias de peixes bizarros, “blindados”, puxados de redes profundas e depois rapidamente devolvidos ao mar - feios demais para comer, estranhos demais para nomear. Os cientistas tinham vestígios genéticos, alguns cadáveres danificados, um punhado de testemunhos.

O que ninguém tinha eram imagens como deve ser, captadas na natureza por mergulhadores europeus, em condições normais de mergulho recreativo. Foi exatamente isso que esta pequena equipa francesa trouxe: fotografias de alta resolução de um celacanto indonésio, com os olhos a brilhar à luz da lanterna, as barbatanas carnudas abertas como asas em câmara lenta. O tipo de prova que não se descarta com um encolher de ombros.

Estas fotos podem parecer apenas mais um “troféu” subaquático, mas caem no centro de uma história científica e ambiental muito mais profunda. O celacanto indonésio, Latimeria menadoensis, só foi oficialmente descrito em 1999, depois de um exemplar ter aparecido num mercado local. Desde então, cada novo avistamento confirmado tem sido como encontrar uma página de um livro que julgávamos ter ardido com os dinossauros.

Desta vez, as páginas mostram mais do que um peixe. Revelam um habitat frágil: encostas vulcânicas íngremes a descerem para o abismo, onde uma linhagem mais antiga do que o T‑rex sobreviveu à pesca industrial, ao lixo plástico e ao aquecimento da água. Um sobrevivente pré-histórico que, de repente, parece assustadoramente moderno - a nadar através de uma crise feita pelo homem, para a qual nunca evoluiu.

Como é que se encontra, de facto, um “fóssil vivo” debaixo de água?

Ver um celacanto não é como avistar uma tartaruga ou um tubarão-de-recife. Não se entra em qualquer lagoa turquesa à espera do melhor. A equipa francesa passou meses a planear o mergulho, a estudar cartas batimétricas e a falar com capitães locais que conheciam cada recanto da costa vulcânica.

Escolheram uma falésia subaquática que mergulha dos 20 para mais de 150 metros numa única parede escura. Os celacantos adoram este cenário: grutas, saliências, afloramentos frios que sobem da vala profunda. O mergulho foi noturno, no limite das profundidades recreativas, com luzes redundantes e uma linha de segurança pronta. Não é glamoroso - é meticuloso. Uma decisão errada e não há peixe: apenas um vazio azul e frio e muito azoto no sangue.

A maioria de nós, a fazer scroll no telemóvel, vê a foto final e esquece as dezenas de mergulhos que a antecederam. Longas esperas num mar agitado. Garrafas carregadas e descarregadas num calor pegajoso. Mais uma descida, mais uma parede negra, mais uma hora a ver olhos de camarão a cintilar no feixe de luz enquanto a “estrela” se recusa a aparecer. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Todos conhecemos aquele momento em que começamos a duvidar de que aquilo que perseguimos vá alguma vez aparecer: a resposta ao emprego, a mensagem de volta, o animal que atravessámos o mundo para ver. Foi exatamente aí que os mergulhadores franceses estavam, no quinto mergulho noturno sem um único celacanto, quando aquela silhueta maciça finalmente se soltou da rocha. Por vezes, obsessão é apenas paciência que se recusa a calar.

“Desde o primeiro segundo em que o vi, esqueci-me de todos os planos”, admitiu mais tarde um dos mergulhadores franceses. “Estava a respirar demasiado depressa, as mãos tremiam. Tinha treinado para isto, mas o meu cérebro gritava: ‘Estás a olhar para algo que devia estar num museu, não à frente da tua máscara.’”

  • Disciplina de profundidade: O peixe pairava por volta dos 40–45 metros, mesmo no limite de descompressão séria. A equipa definiu limites rígidos: nada de perseguições, nada de descer mais fundo só por um melhor ângulo.
  • Delicadeza na iluminação: Usaram feixes largos e suaves em vez de holofotes agressivos, para evitar cegar ou stressar o animal. O resultado: retratos calmos, quase como de estúdio.
  • Conhecimento local: O mergulho nunca teria acontecido sem tripulações indonésias e pescadores, cujo “às vezes vemos” casual se transformou em coordenadas precisas.
  • Escolha ética: Sem tocar, sem dirigir bolhas ruidosas ao animal, sem rajadas de flash. A prioridade não era a imagem “perfeita”; era deixar o celacanto exatamente como o encontraram.

Um peixe pré-histórico perante um futuro muito contemporâneo

Quando a equipa francesa regressou à superfície, sabia que tinha algo raro nos cartões de memória. O tipo de fotos que, de um dia para o outro, acende grupos de WhatsApp de biólogos marinhos. Ainda assim, a primeira reação de vários investigadores foi menos “uau” e mais “temos de falar sobre este sítio”.

Porque cada celacanto confirmado, escondido numa gruta, significa mais um ecossistema vulnerável exposto. Encostas vulcânicas íngremes como as ao largo de Sulawesi do Norte estão sob pressão da pesca de profundidade, de projetos portuários e até de turismo não regulamentado. Estes peixes podem viver cerca de 100 anos, reproduzem-se lentamente e deslocam-se pouco. Uma rede de arrasto mal colocada e não se perde apenas um indivíduo: apaga-se um século de história subaquática em poucos minutos.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Fóssil vivo Os celacantos remontam a mais de 400 milhões de anos Dá uma noção de tempo profundo e da fragilidade da vida na Terra
Fotos francesas Primeiras imagens de alta qualidade feitas por mergulhadores em águas indonésias Mostra que encontros “impossíveis” ainda acontecem durante a nossa vida
Habitat ameaçado Encostas vulcânicas profundas afetadas pela atividade humana Lembra que as escolhas dos leitores impactam até as espécies mais remotas

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Pergunta 1: O que é exatamente um celacanto?
    Resposta 1: Um celacanto é um grande peixe de profundidade, com barbatanas lobadas, pertencente a uma linhagem antiga que se julgava extinta até 1938. É muitas vezes chamado “fóssil vivo” porque o seu plano corporal mudou muito pouco ao longo de centenas de milhões de anos.
  • Pergunta 2: Onde foi fotografado o celacanto pela equipa francesa?
    Resposta 2: O peixe foi fotografado à noite ao largo da costa de Sulawesi do Norte, na Indonésia, ao longo de um declive vulcânico abrupto pontuado por grutas e saliências rochosas, onde os celacantos costumam repousar durante o dia.
  • Pergunta 3: Mergulhadores recreativos podem esperar ver um também?
    Resposta 3: Tecnicamente, sim, mas exige competências avançadas de mergulho profundo, guias locais experientes e muita paciência. As condições podem ser arriscadas e os avistamentos estão longe de ser garantidos, mesmo após vários mergulhos.
  • Pergunta 4: Esta descoberta é cientificamente importante?
    Resposta 4: Sim. Imagens de alta qualidade de celacantos indonésios vivos ajudam a confirmar a sua presença, comportamento e preferências de habitat. Cada encontro documentado alimenta a investigação sobre a saúde das populações e as prioridades de conservação.
  • Pergunta 5: O que podem fazer os leitores comuns por espécies como esta?
    Resposta 5: Apoiar reservas marinhas, apoiar grupos locais de conservação na Indonésia, escolher marisco de fontes sustentáveis e simplesmente partilhar informação verificada sobre celacantos - tudo isto contribui para manter estes habitats intactos.

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