A primeira noite fria apanha-nos sempre a meio de qualquer coisa.
Num momento ainda estás no fim do verão, descalço na relva, e no seguinte reparas que a luz mudou e o ar cheira, ao de leve, a fumo e terra húmida.
Olhas para baixo e percebes que a relva já não está verde: tem manchas de amarelo e cobre, e as árvores largam as folhas como se estivessem à espera desta deixa o ano inteiro.
É normalmente aí que começa o pânico.
Agarras num ancinho, num saco preto grande, e começas a batalha anual: raspar, amontoar, enfiar, mandar toda aquela fragilidade outonal “para longe”.
Só que essas folhas não estão, de facto, a ir embora.
Estão apenas a sair do teu jardim.
O reflexo de outono que, discretamente, sabota o teu jardim
Passeia por qualquer bairro num sábado de outubro e verás a mesma coreografia.
Pessoas dobradas sobre ancinhos, o assobio constante dos sopradores de folhas, montes arrastados para o passeio como sacos de segredos culpados.
Há uma urgência estranha nisso.
Como se uma folha esquecida na relva durante a noite pudesse desencadear algum tipo de escândalo na vizinhança.
A relva tem de estar visível, os caminhos têm de estar limpos, os canteiros têm de estar nus.
Limpamos tudo até o jardim ficar quase despido, pronto para o inverno como um quarto de hotel pronto para o hóspede seguinte.
E, no entanto, esse reflexo de arrumação é precisamente aquilo que rouba ao solo o seu cobertor de inverno.
Passa uma manhã com um jardineiro experiente e verás uma cena muito diferente.
Em novembro passado, visitei um casal idoso numa aldeia pequena que cultiva legumes com um aspeto tão perfeito que parece editado.
O relvado deles não estava impecavelmente limpo.
As folhas tinham sido retiradas da relva, sim, mas tinham sido espalhadas em camada espessa debaixo de arbustos, à volta das roseiras e por cima dos canteiros de horta vazios.
Num canto, uma montanha silenciosa de folhas ia-se transformando devagar em algo escuro e esfarelado.
O marido riu-se quando falei em sacos de folhas.
“Não pagamos fertilizante”, disse, empurrando o monte com a bota.
“Isto é o nosso fertilizante.”
Tinha aquele ar calmo de quem já foi provado certo por muitas primaveras.
O grande erro que a maioria dos jardineiros comete não é ancinhar as folhas.
É tratá-las como lixo em vez de matéria-prima.
Um jardim nu pode parecer limpo, mas também fica exposto.
Sem uma camada leve de matéria orgânica, o solo perde humidade mais depressa, congela com mais intensidade e desperta mais tarde na primavera.
As minhocas ficam mais fundo.
Os micróbios abrandam.
As raízes sofrem em silêncio enquanto admiramos a arrumação pela janela da cozinha.
A verdade simples é esta: cada saco de folhas que arrastas para o passeio é um saco de mulch gratuito, de composto gratuito e de vida gratuita que estás a oferecer.
O que fazer com as folhas em vez de as deitar fora
O gesto mais inteligente no outono não é deixar de ancinhar.
É mudar o destino das folhas.
Começa por retirar os tapetes espessos de folhas do relvado.
A relva pode sufocar sob um carpete húmido e pesado, sobretudo se tiveres um inverno longo e frio.
Mas, em vez de as ensacares, leva essas folhas para onde são bem-vindas.
Espalha uma camada de 5–8 cm debaixo de árvores e arbustos, à volta de plantas perenes e sobre canteiros de horta vazios.
Rasga ou tritura grosseiramente as folhas se forem grandes, como as do carvalho ou do plátano.
Não estás a tentar enterrar o jardim.
Estás apenas a dar ao solo um casaco respirável.
Muita gente preocupa-se por o mulch de folhas parecer desarrumado ou atrair pragas.
Esse receio é exatamente o motivo pelo qual tantos jardins acabam despidos em dezembro.
Uma leitora contou-me que antes removia todas as folhas porque a vizinha anterior se queixava.
Quando finalmente se atreveu a mantê-las e a espalhá-las debaixo das sebes, notou algo quase irritante: as plantas precisaram de menos rega no verão seguinte.
O solo manteve-se fresco sob o mulch, mesmo durante uma pequena onda de calor.
Também admitiu que deixou de comprar mulch de casca quando percebeu que tinha uma versão gratuita a cair do céu todos os anos.
As folhas podem não ter aquele aspeto polido de jardim de catálogo no primeiro dia, mas assentam surpreendentemente depressa.
“Todos os outonos, os jardineiros pagam para deitar fora aquilo que a floresta usa para se manter viva”, diz um ecólogo do solo com quem falei.
“Na natureza, ninguém aparece com sacos e sopradores. As folhas caem, decompõem-se e alimentam as próprias árvores que as produziram.”
- Usar como mulch nos canteiros
Espalha uma camada fina à volta de arbustos, roseiras, sebes e plantas perenes. Retém a humidade, protege a vida do solo e limita as ervas daninhas. - Fazer um monte de folhada (leaf mould)
Junta folhas numa simples gaiola de arame ou num canto do jardim, humedece uma vez e esquece por um ano. Vais obter um material leve e rico, perfeito para melhorar canteiros. - Triturar e deixar no relvado
Passa o corta-relva por cima de uma dispersão leve de folhas secas. Os pedacinhos infiltram-se na relva e alimentam-na lentamente durante o inverno. - Manter tapetes grossos e húmidos longe de plantas delicadas
Remove montes compactos de cima de pequenas perenes ou bolbos recém-plantados para não apodrecerem. - Excluir algumas folhas problemáticas
Folhas de roseira doentes ou folhagem de árvores de fruto muito manchada é melhor compostar a quente ou remover, em vez de usar como mulch frio nas mesmas plantas.
Uma forma diferente de ver a “confusão” do outono
Quando mudas a forma de olhar, aqueles cantos “sujos” do jardim começam a parecer contas de investimento.
Um anel de folhas à volta de uma árvore é húmus futuro.
Esse farfalhar macio debaixo dos pés são os nutrientes do próximo ano à espera de voltar ao ciclo.
Há um prazer discreto em deixar o jardim ser um pouco menos perfeito em outubro.
Continuas a orientar as coisas, continuas a ancinhar - só deixas de tratar tudo o que cai como um problema a exportar.
Guardas parte da riqueza no local.
As tuas plantas da primavera agradecerão em silêncio, mesmo que o teu compostor pareça demasiado cheio para ser fotografado.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Ancinhar não é o inimigo | Remove camadas espessas do relvado e transfere-as para canteiros e debaixo de arbustos | Protege a relva enquanto alimenta e isola as bordaduras |
| As folhas são mulch gratuito | Usa 5–8 cm como cobertor de inverno sobre solo exposto | Menos rega, menos ervas daninhas, melhor estrutura do solo |
| Montes de folhas tornam-se folhada (leaf mould) | Deixa as folhas recolhidas decompor durante 12–18 meses | Cria um corretivo leve e rico para canteiros e misturas de sementeira |
FAQ:
- Devo deixar todas as folhas no relvado?
Não. Uma dispersão leve é aceitável, sobretudo se as triturares com o corta-relva. Camadas grossas e húmidas podem sufocar a relva, por isso transfere-as para canteiros ou para um monte de folhas.- Algumas folhas de árvores são más para o jardim?
Folhas muito rijas, como as do carvalho ou da magnólia, demoram apenas mais tempo a decompor-se e beneficiam de trituração. Só deves remover folhas claramente doentes das plantas específicas de onde vieram.- As folhas atraem lesmas ou pragas?
Podem servir de abrigo, mas um mulch moderado tende a equilibrar-se ao favorecer predadores como escaravelhos e aves. O que dá problemas são montes pesados e encharcados encostados a caules jovens.- Quanto tempo demora a formar folhada (leaf mould)?
Normalmente 12–18 meses. Amontoa as folhas, humedece uma vez e deixa-as em paz. Sejamos honestos: ninguém vira o monte de folhas todos os meses sem falhar.- Posso fazer mulch em plantas em vaso com folhas?
Sim, numa camada fina. Usa folhas secas, ligeiramente trituradas, e evita pressioná-las contra os caules. Ajudam a impedir que o substrato seque demasiado depressa.
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