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"Ninguém explicou como fazer: a lenha que guardaram durante meses estava afinal inutilizável."

Pessoa põe lenha cortada num carrinho de mão no quintal, ao lado de pilha de madeira perto de um galpão de madeira.

A primeira geada mal tinha desenhado o seu véu leitoso nas janelas quando o Marc desceu ao jardim, a esfregar as mãos. O fogão a lenha tinha sido o grande projeto do ano. Passara a primavera a cortar, rachar, empilhar. Uma parede perfeita de toros, como uma foto do Pinterest com terra debaixo das unhas.
Dois braçados depois, abriu o fogão, riscou o fósforo… e viu a chama engasgar-se em madeira a chiar e a fumegar.
Os toros enegreceram sem pegar, o vidro ficou castanho, a sala encheu-se daquele cheiro azedo de fumo húmido. Lá fora, a pilha impecável de lenha parecia uma acusação silenciosa.
Ninguém lhe tinha dito que se pode “fazer tudo bem” e mesmo assim acabar com madeira inútil.
É aí que se percebe: o fogo não perdoa palpites.

Quando a pilha perfeita se transforma numa desilusão gelada

Da rua, a pilha parecia impecável. Filas direitas, extremidades bem cortadas, uma lona jeitosa por cima. Daquelas arrumações de lenha que fazem os vizinhos acenar com respeito. Dentro de casa, porém, a realidade era menos fotogénica. A madeira cuspia, fumava e amuava no fundo do fogão.
O Marc tentou outra vez, acrescentando mais acendalhas, abrindo ao máximo as entradas de ar. O mesmo resultado. Uma chama preguiçosa a lutar por oxigénio, como alguém a tentar correr dentro de uma piscina.
A sala continuava fria, mas a frustração aqueceu depressa.

E está longe de ser o único. Todos os invernos, os fóruns enchem-se do mesmo pedido de ajuda: “A minha lenha não arde, o que estou a fazer mal?” Uns dizem que é o fogão, outros culpam a chaminé, e alguns suspeitam que compraram lenha “má”. Por trás do ecrã, ouve-se a mesma exasperação.
Uma mulher escreveu que o marido passou três fins de semana a empilhar toros “como numa revista” para descobrir, em dezembro, que ainda estava tudo encharcado. Ela tinha planeado lareiras acolhedoras para o Natal. Em vez disso, ficou com uma sala a cheirar a humidade e uma fatura do gás.
Todos já passámos por esse momento em que percebemos que ninguém nos ensinou a parte aborrecida por trás da imagem bonita.

Lenha não é apenas “madeira numa pilha”. É um processo lento, quase um ofício. O toro que arde limpo em janeiro é o resultado de escolhas feitas na primavera anterior. Espécie, comprimento, rachar, exposição ao vento, distância à parede, tipo de cobertura. Tudo conta.
A madeira empilhada de forma errada não seca a sério. Fermenta, ganha bolor e prende a humidade no centro. Por fora, pode parecer bem curada. Por dentro, está tão molhada como um ramo acabado de cortar.
Sejamos honestos: ninguém mede a humidade com um medidor todos os dias. E, no fim, a física tem sempre a última palavra.

A ciência silenciosa da lenha que realmente arde

A secagem a sério começa no momento em que a madeira é rachada. Um toro inteiro mantém a água “presa” durante meses. Rache-o, e abre portas para o ar circular. A primeira regra é simples: corte no comprimento certo para o seu fogão, rache o mais cedo possível e tire esses pedaços do chão.
Uma fila de paletes, dois blocos de cimento, até vigas velhas: tudo é melhor do que terra nua. Depois vem o espaçamento. Deixe folgas entre filas, não esmague tudo num único bloco maciço. O ar tem de conseguir circular livremente, como uma brisa a passar entre edifícios.
O sol é um bónus. O vento é inegociável.

Muita gente comete o mesmo erro, muito humano: proteger demasiado a lenha. Envolvem-na da cabeça aos pés numa grande folha de plástico “para se manter seca”. Parece lógico, até cuidadoso. Na realidade, é uma armadilha. A humidade da própria madeira não tem para onde ir.
Ao longo dos meses, forma-se condensação por baixo da lona, gotas escorrem pelos toros, o fungo instala-se em silêncio. Volta no inverno a uma pilha que parece bem por cima e está esponjosa por baixo.
A melhor cobertura é como um chapéu, não como um impermeável: topo protegido, lados abertos.

“Boa lenha é 20% madeira e 80% a forma como a guarda”, ri-se Pierre, um limpa-chaminés que passa os invernos a explicar a mesma coisa, casa após casa. “Chamam-me por causa de um ‘fogão mau’ e acabo a dar uma mini aula de meteorologia e física no jardim.”

  • Eleve a lenha do chão
    Use paletes, blocos ou uma estrutura simples de madeira para evitar o contacto com o solo e a humidade ascendente.
  • Rache o mais cedo possível
    Toros grandes secam muito devagar. Lenha rachada seca mais depressa e de forma mais uniforme.
  • Deixe espaço entre as filas
    Pelo menos a largura de uma mão, ou um corredor estreito para o vento passar.
  • Cubra apenas o topo
    Um pequeno telhado, uma lona parcial ou tábuas, deixando os lados completamente abertos.
  • Rode o stock
    A lenha mais antiga à frente, a nova atrás. Não enterre os bons toros do ano passado debaixo dos verdes deste ano.

Quando meses de paciência se transformam em experiência, não em falhanço

Há algo quase íntimo na lenha. Toca-se, cheira-se, vê-se a cor mudar do branco ou amarelo fresco para aquele aspeto acinzentado, ligeiramente rachado, de lenha curada. À superfície, é só uma pilha no quintal. Por dentro, é um pacto silencioso com os seus invernos futuros.
Quando se descobre, tarde demais, que todo o stock está húmido, a desilusão vai além do dinheiro desperdiçado. Toca naquele desejo de estar “preparado”, de cuidar da casa de forma simples e concreta.
O ardor desse primeiro inverno falhado é, muitas vezes, o que transforma as pessoas em verdadeiros obcecados por lenha no ano seguinte.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Curar pelo menos 18–24 meses Cortar, rachar e empilhar um a dois anos antes de queimar Combustão mais limpa, mais calor, menos creosoto na chaminé
Deixe o vento fazer o trabalho Lados abertos, espaço entre filas, base elevada Secagem mais rápida, menos bolor, lenha fiável
Teste antes de depender dela Use um medidor de humidade ou experimente alguns toros no início da época Evita descobrir em dezembro que a pilha inteira é inutilizável

FAQ:

  • Quão seca deve estar a minha lenha para arder bem?
    O ideal é um teor de humidade à volta de 15–20%. Acima de 25%, a madeira vai chiar, fumegar e libertar muito menos calor. Abaixo de 15%, pode arder depressa demais e danificar alguns aparelhos.
  • Posso guardar lenha debaixo de uma lona totalmente fechada?
    Só por períodos muito curtos. Para armazenamento prolongado, cubra apenas o topo e deixe os lados abertos para a humidade escapar e o ar circular.
  • Posso queimar madeira recém-cortada se estiver com pressa?
    Pode, mas vai perder energia a evaporar água, aumentar o risco de acumulação de creosoto e ter pior conforto. Mesmo seis meses de secagem raramente chegam para a maioria das espécies.
  • Como sei se a lenha está mesmo seca sem medidor?
    A lenha seca é mais leve, apresenta pequenas fissuras radiais nas extremidades, faz um som mais seco quando se batem duas peças e não cheira a “verde” quando é rachada.
  • O tipo de madeira muda a forma como devo guardá-la?
    Sim. Folhosas densas como o carvalho precisam de mais tempo de cura do que resinosas como o abeto. Todas as espécies beneficiam das mesmas boas práticas, mas algumas exigem simplesmente mais um ano de paciência.

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