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Poucos sabem, mas o chamado “cheiro a velho” não é causado por falta de higiene.

Idosa sorridente dobra toalhas na mesa com plantas e frasco de óleo.

Walkar para a casa de um familiar mais velho e poderá notar um cheiro muito específico, estranhamente familiar, mas difícil de explicar.

Muitas pessoas culpam discretamente a higiene ou os hábitos de limpeza por esse inconfundível “cheiro a pessoa idosa”, mas a ciência aponta numa direção bem diferente. Os investigadores demonstraram que este odor não tem a ver com roupa suja ou banhos “falhados”, mas sim com uma alteração química no corpo que surge com a idade - mesmo em pessoas cuidadosas, limpas e totalmente independentes.

O que os cientistas querem realmente dizer com “cheiro a pessoa idosa”

Em laboratórios que estudam o odor corporal humano, existe um nome técnico para este fenómeno: odor relacionado com a idade. Não é uma doença, não é uma infeção e não significa que alguém deixou de cuidar de si.

O cheiro associado à idade avançada é uma parte normal e intrínseca do envelhecimento humano, impulsionada pela química e não pela limpeza.

A partir, aproximadamente, dos 40 anos, a nossa pele vai alterando gradualmente a mistura de substâncias que produz. Entre elas surge um composto chamado 2‑nonenal. Este químico tem sido descrito como ligeiramente gorduroso, herbáceo, ou semelhante a cartão velho. Os adultos mais jovens quase não o produzem.

O 2‑nonenal forma-se quando os ácidos gordos ómega‑7 da pele se degradam e oxidam. À medida que envelhecemos, produzimos mais destes ácidos gordos e a nossa pele torna-se menos eficaz a eliminá-los. Quando entram em contacto com o ar, transformam-se em 2‑nonenal, que depois se fixa na pele, adere aos tecidos e permanece em espaços fechados.

Porque é que os banhos não fazem o cheiro desaparecer

Muitas vezes assume-se que um cheiro mais intenso significa que a pessoa não se lava o suficiente. No caso do odor relacionado com a idade, essa suposição é simplesmente errada. A biologia do 2‑nonenal faz com que, mesmo esfregando bem, ele continue a ser notado.

O 2‑nonenal é “lipofílico”, ou seja, dissolve-se em gordura, não em água. Muitos sabonetes comuns visam sobretudo sujidade solúvel em água, suor e pó. Não removem por completo estes compostos gordurosos e pegajosos.

Mesmo um banho cuidadoso não impede a pele de continuar a produzir 2‑nonenal e a libertá-lo novamente ao fim de poucas horas.

Outra complicação: o composto não está apenas à superfície da pele. Forma-se mais profundamente nas camadas externas da pele e depois difunde-se para fora. Assim, lavagens mais agressivas não chegam à origem e ainda podem secar a pele, o que pode agravar o problema ao longo do tempo.

O cheiro também se agarra a tecidos que ficam próximos do corpo: pijamas, fronhas, cadeirões, bancos do carro. Quando essas fibras absorvem óleos contendo 2‑nonenal, vão libertando lentamente o aroma de volta para o ar, mesmo quando a pessoa acabou de tomar banho.

Principais razões pelas quais a higiene não consegue apagar totalmente o odor

  • O 2‑nonenal prefere gordura, não água, por isso resiste ao sabonete comum e a duches rápidos
  • A pele continua a produzi-lo dia e noite, sobretudo após a meia-idade
  • Forma-se em camadas mais profundas da epiderme, para além do que a lavagem alcança
  • Acumula-se em roupa, cama e estofos que tocam regularmente na pele

Toda a gente cheira da mesma forma à medida que envelhece?

Não. Em algumas pessoas, o odor relacionado com a idade é quase impercetível; noutras, é mais marcado. Vários fatores explicam esta variabilidade.

A genética tem um papel. Alguns organismos produzem naturalmente mais ácidos gordos que se transformam em 2‑nonenal. A alimentação também conta. Refeições ricas em fritos e gorduras processadas podem aumentar a disponibilidade de lípidos oxidados no corpo, o que pode elevar esse composto.

Por outro lado, dietas mais ricas em fruta, legumes, frutos secos e outros alimentos com antioxidantes podem limitar ligeiramente os processos de oxidação. Isso não impede o envelhecimento, mas pode ajustar suavemente o equilíbrio químico na pele.

Os hábitos de estilo de vida são outra peça importante do puzzle. Fumar aumenta o stress oxidativo em todo o corpo, incluindo na pele, e tende a intensificar odores. Um consumo elevado de álcool pode ter um efeito semelhante.

Adultos mais velhos que se mantêm hidratados, se mexem regularmente e seguem uma alimentação equilibrada tendem a ter um odor relacionado com a idade mais suave e menos intrusivo.

O que tende a tornar o odor mais forte?

Fator Efeito típico no odor relacionado com a idade
Tabagismo Aumenta a oxidação e muitas vezes torna o cheiro mais intenso
Consumo elevado de álcool Pode piorar o odor corporal e alterar a composição do suor
Dieta muito gordurosa e processada Pode aumentar a degradação de lípidos da pele em 2‑nonenal
Má ventilação em casa Permite que os odores se acumulem nos tecidos e no ar
Lavagem regular da roupa e boa hidratação Tende a suavizar ou diluir o cheiro ao longo do tempo

Formas práticas de atenuar, não eliminar, o cheiro

A ciência é clara: ninguém consegue “fugir” completamente ao 2‑nonenal. O objetivo não é “curá-lo”, mas gerir quão forte e perceptível ele se torna. Isso começa na pele e estende-se ao ambiente da casa.

Sabonetes e gel de banho mais direcionados podem ajudar. Produtos com carvão ativado, argila ou fórmulas pensadas para pele oleosa tendem a ligar-se melhor a compostos lipofílicos. Podem remover mais 2‑nonenal em cada lavagem do que um sabonete muito suave convencional.

As rotinas de lavagem da roupa são tão importantes como isso. Fronhas, T‑shirts, pijamas, toalhas e roupa de cama acumulam os óleos da pele dia após dia. Lavar estas peças com mais frequência e usar água morna ou quente (quando o tecido o permite) ajuda a retirar os óleos retidos e a reduzir o odor persistente no interior.

Divisões bem ventiladas e tecidos recém-lavados costumam reduzir muito mais o “cheiro a casa antiga” do que insistir num banho extra.

Estratégias úteis do dia a dia

  • Escolher gel de banho com carvão, argila ou agentes mais fortes de remoção de gordura
  • Trocar roupa de cama e toalhas com frequência, e não apenas semanalmente “quando dá jeito”
  • Lavar roupa usada junto ao corpo em água mais quente quando a etiqueta permitir
  • Arejar as divisões diariamente: abrir janelas, deixar o ar circular, usar ventoinhas quando necessário
  • Rodar almofadas e capas de cadeiras ou lavá-las regularmente, se forem removíveis

Como este conhecimento pode reduzir estigma e constrangimento

Muitas pessoas idosas sentem-se profundamente autoconscientes em relação ao seu cheiro. Algumas receiam que as visitas pensem que estão a descurar a higiene ou a casa. Outras começam a limpar em excesso, usando produtos agressivos na pele ou sprays químicos fortes no ambiente, o que pode irritar os pulmões e desencadear alergias.

Compreender que o odor faz parte do envelhecimento natural muda o tom da conversa. Famílias e cuidadores podem afastar-se de insinuações como “talvez devas tomar banho mais vezes” e avançar para medidas concretas e de apoio: ajudar com a lavandaria, melhorar a ventilação, ou comprar sabonetes mais suaves mas mais eficazes.

Em vez de culpabilizar, os familiares podem encarar o cheiro como um projeto partilhado da casa, não como uma falha pessoal.

Esta mudança também ajuda os mais novos a imaginar o próprio futuro de forma mais realista. Toda a gente que viver tempo suficiente terá algum grau de odor relacionado com a idade. Vê-lo como uma das muitas mudanças biológicas - a par das rugas ou do cabelo grisalho - pode reduzir a vergonha e tornar ajustes práticos algo normal, em vez de humilhante.

Termos úteis e cenários sobre os quais as pessoas costumam perguntar

“Oxidação” aparece repetidamente na investigação sobre o 2‑nonenal. Em termos simples, oxidação é o que acontece quando uma substância reage com oxigénio. A ferrugem no metal, uma maçã cortada a ficar castanha e os óleos a ficarem rançosos são formas de oxidação. Na pele, ácidos gordos que reagem com o ar podem transformar-se em novos compostos - alguns com cheiros fortes.

Outro termo que vale a pena explicar é “lipofílico”. Uma substância lipofílica prefere gordura e evita a água. Pense em como o azeite forma gotas e não se mistura com a água num copo. Como o 2‑nonenal se comporta mais como esse óleo do que como sal ou açúcar, atirar água para a pele não o remove muito eficazmente sem algo que se ligue às gorduras.

Imagine um cenário comum: um homem com mais de 70 anos toma banho todas as manhãs, veste roupa limpa, mas vive sozinho num pequeno apartamento com janelas fechadas e cadeirões com décadas. Ao longo do tempo, os óleos da pele impregnaram o tecido. Mesmo visitantes que vejam uma casa de banho impecável podem notar um cheiro distinto. Aqui, a resposta não é pressioná-lo em relação aos banhos, mas ajudar a lavar mantas, abrir janelas diariamente e, talvez, substituir ou limpar a fundo as peças de mobiliário mais saturadas.

Compare isso com uma mulher idosa que vive com a família, tem roupa lavada com frequência e gosta de caminhar ao ar livre. Ela produz 2‑nonenal como qualquer pessoa da sua idade, mas a rotação constante de tecidos, o ar fresco e a atividade física mantêm o cheiro muito menos perceptível. A diferença está nas rotinas e no ambiente, não na “virtude” pessoal.

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