Ao romper da manhã, a colina não parece grande coisa. Uma névoa suave agarra-se às encostas, daquela que desfoca os contornos e torna difícil avaliar as distâncias. Um homem, de botas de borracha gastas e rachadas, sai do trilho de terra batida, passando a mão pelo tronco de um mogno jovem como se cumprimentasse um velho amigo. Há vinte e cinco anos, diz ele, este lugar não era mais do que pó e pedras. Podia-se ficar ali a sentir o calor a subir do chão como se se tivesse aberto a porta de um forno.
Agora, o ar é mais fresco, húmido com o cheiro a folhas e terra. Lá em cima, algures, os pássaros discutem, escondidos na copa que não existia quando ele era criança.
O que não se vê é aquilo que os cientistas estão a observar com mais atenção.
De desertos de pó a esponjas verdes de carbono
Hoje, ao atravessar de carro certas zonas do Planalto de Loess, na China, os olhos pregam-nos uma partida. As colinas parecem macias, quase felpudas, cosidas com socalcos de árvores e arbustos em diferentes tons de verde. Os habitantes lembram-se de uma imagem muito diferente: encostas amarelas e erodidas, tempestades de poeira tão densas que arranhavam a garganta, colheitas a diminuir ano após ano.
Numa única geração, essa paisagem virou do avesso: de exausta passou a discretamente poderosa. Essas mesmas colinas retiram agora, todos os anos, milhões de toneladas de CO₂ do ar - árvore a árvore, raiz a raiz.
Vê-se uma história semelhante na Zona Norte da Costa Rica. No final dos anos 80, grande parte das terras em redor de San Carlos tinha sido rapada para gado. Pastagens castanhas, vacas magras, rios quentes e desprotegidos. Hoje, as florestas voltaram a crescer numa área maior do que alguns países pequenos.
Os biólogos estimam que as florestas em recuperação do país absorvem mais CO₂ do que aquele que a Costa Rica inteira emite todos os anos. Os dados de satélite confirmam: manchas verde-escuras a espalharem-se, ano após ano, onde antes o solo nu refletia o sol diretamente para o céu.
O que mudou é simultaneamente simples e radical. Quando se deixa as árvores regressarem - ou quando se lhes dá uma ajuda com mudas e vedações - inverte-se a equação do carbono. As folhas retiram CO₂ do ar. Os troncos armazenam-no durante décadas. As raízes transferem-no para o solo, onde fungos e micróbios o fixam longe da atmosfera.
Os cientistas chamam a estes lugares “sumidouros de carbono”, mas, no terreno, eles sentem-se apenas como sombra, noites mais frescas e um pouco mais de chuva. A matemática invisível do clima muda com cada muda que sobrevive a mais uma estação seca.
Como a reflorestação reconfigura silenciosamente o clima
O método, à primeira vista, é quase teimosamente modesto: plantar árvores, protegê-las, esperar. Ou, por vezes, nem sequer plantar. Basta vedar a terra degradada, parar os incêndios e o pastoreio, e deixar que as sementes já existentes no solo façam o resto. Não parece uma grande solução climática quando se está encharcado de suor a subir uma encosta com mudas às costas.
Ainda assim, esse trabalho lento e repetitivo acumula-se. Ao fim de 25 anos, uma muda torna-se uma coluna imponente de carbono armazenado, e uma encosta transforma-se numa máquina viva que inspira CO₂ todos os dias.
As pessoas imaginam muitas vezes a reflorestação como filas intermináveis de pequenos pinheiros idênticos. Os governos adoram essas fotografias. A verdade simples é esta: grandes plantações em monocultura podem desiludir. Crescem depressa, mas não armazenam carbono de forma tão consistente ou tão segura como florestas mistas, de aspeto mais “selvagem”. São vulneráveis a pragas, tempestades e fogo.
As comunidades que mantiveram a reflorestação durante mais tempo tendem a fazer algo diferente. Escolhem espécies locais. Misturam árvores de fruto com árvores madeireiras, espécies de crescimento rápido com gigantes de vida longa. Essa diversidade “desarrumada” é precisamente o que reforça a capacidade da floresta para fixar carbono a longo prazo.
Ouçam-se as pessoas que viram paisagens transformarem-se e percebe-se um certo tom: cansado, orgulhoso, ligeiramente surpreendido. Muitos nunca esperaram que os resultados fossem tão visíveis.
“Toda a gente nos disse que plantar árvores seria um gesto bonito”, ri-se Maria, uma líder comunitária do nordeste do Brasil, “mas agora os cientistas vêm cá e dizem que o nosso pequeno projeto é ‘relevante para o clima’. Nós só queríamos impedir que a poeira entrasse nas cozinhas.”
- Deixar a natureza liderar: proteger arbustos existentes, árvores espontâneas e plântulas naturais antes de plantar novas.
- Pensar em décadas, não em estações: o impacto real no carbono surge após 15–30 anos de crescimento ininterrupto.
- Plantar variedade, não vaidade: misturar espécies para alimento, sombra, madeira e fauna, em vez de perseguir uma única “árvore milagrosa”.
- Proteger as margens: nos primeiros anos, proteger as árvores jovens do fogo, das cabras e de desbastes casuais. É aí que a maioria dos projetos falha.
- Acompanhar a história: fotografias simples, notas e medições locais ajudam a provar impacto e a atrair financiamento que mantém o trabalho.
Uma nova relação com os lugares que antes deixámos a nu
Ficar de pé num vale reflorestado há 25 anos faz com que algo, dentro do peito, mude em silêncio. Antes de ver, ouve-se: o chamamento aquoso das rãs, o bater de asas no sub-bosque, o zumbido dos insetos num feixe de luz. Sente-se que aquele lugar está ocupado, mesmo quando ninguém está a olhar.
Todos conhecemos esse momento em que regressamos a um lugar de infância e mal o reconhecemos. Para muitas famílias rurais, esse choque agora acontece ao contrário: a colina nua onde cresceram tornou-se numa floresta que os filhos já não conseguem imaginar como terra morta.
Há também um lado social que não cabe bem em gráficos climáticos. Novas florestas trazem sombra para trabalhadores agrícolas, fruta para os mercados locais, noites mais frescas que reduzem a necessidade de ar condicionado. As nascentes reaparecem, a água mantém-se mais tempo no solo, e as culturas ali perto sofrem um pouco menos com as ondas de calor.
Sejamos honestos: ninguém conta estas coisas todos os dias. Apenas sabem que a vida parece um pouco mais vivível quando há árvores no horizonte.
A reflorestação não é uma bala de prata e pode ser usada indevidamente como desculpa conveniente para continuar a queimar combustíveis fósseis. Ainda assim, a realidade vivida nestes lugares outrora estéreis é impossível de ignorar. Paisagens que foram consideradas causas perdidas estão agora, discretamente, a absorver milhões de toneladas de CO₂ todos os anos, a estabilizar climas locais e a redesenhar a forma como as comunidades imaginam o seu futuro.
A questão em aberto é o que acontece se escalarmos isto sem perder o cuidado que, em primeiro lugar, fez com que funcionasse.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A reflorestação a longo prazo funciona | Após cerca de 25 anos, as áreas restauradas podem absorver milhões de toneladas de CO₂ por ano | Dá prazos e expectativas realistas para benefícios climáticos |
| A diversidade supera a monocultura | Florestas mistas, com espécies nativas, armazenam carbono de forma mais fiável do que plantações de uma só espécie | Ajuda os leitores a identificar e apoiar projetos verdadeiramente impactantes |
| As pessoas locais são centrais | O sucesso depende da adesão da comunidade, de direitos sobre a terra e de cuidado quotidiano | Mostra onde o apoio, a pressão ou a participação individual realmente fazem diferença |
FAQ:
- Pergunta 1 Quanto CO₂ conseguem realmente absorver, por ano, as áreas reflorestadas? Regiões reflorestadas grandes e bem geridas podem, em conjunto, absorver dezenas de milhões de toneladas de CO₂ por ano. O número exato varia com o clima, o solo e as espécies, mas projetos de longo prazo chegam frequentemente a várias toneladas de CO₂ por hectare por ano quando as florestas amadurecem.
- Pergunta 2 Plantar qualquer árvore ajuda, ou as espécies importam? As espécies importam muito. Florestas nativas e diversas armazenam carbono de forma mais estável e sustentam solos e fauna mais saudáveis. Árvores de crescimento rápido e não nativas podem dar resultados rápidos, mas muitas vezes trazem riscos como stress hídrico, doenças ou um armazenamento mais fraco a longo prazo.
- Pergunta 3 A reflorestação é suficiente para travar as alterações climáticas por si só? Não. A reflorestação é uma ferramenta poderosa, mas não substitui cortes profundos no uso de combustíveis fósseis. Pense nela como uma enorme ajuda natural que nos compra tempo e reduz impactos, não como um passe livre para continuar a emitir.
- Pergunta 4 E a terra para alimentos? A reflorestação não compete com a agricultura? Quando bem feita, a reflorestação foca-se em terras degradadas e de baixa produtividade e inclui sistemas de agrofloresta que misturam culturas e árvores. Assim, os agricultores continuam a produzir alimentos enquanto constroem sombra, saúde do solo e armazenamento de carbono a longo prazo.
- Pergunta 5 Como pode alguém, longe destes projetos, apoiar este tipo de reflorestação? Pode apoiar programas comunitários validados, pressionar por políticas florestais mais fortes onde vive, reduzir as suas próprias emissões e apoiar produtos provenientes de paisagens restauradas em vez de áreas desflorestadas. Mesmo escolhas pequenas somam quando milhões de pessoas as fazem.
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