Porque é que a ilha de cozinha clássica está, discretamente, a perder força
Durante anos, a ilha de cozinha foi vendida como o “centro” inevitável de uma cozinha moderna. Mas, fora das casas-modelo, a realidade é outra: em cozinhas do dia a dia (especialmente em apartamentos), o entusiasmo por ilhas grandes e fixas está a dar lugar a soluções mais leves como mesas de trabalho e penínsulas. Não é tanto uma questão de tendência-é uma questão de prática.
A ilha monumental pode ser bonita, mas tem um custo: ocupa área útil, aperta a circulação e prende a divisão a uma única forma de funcionar. E numa cozinha onde se cozinha, se trabalha, se recebe e se vive, essa rigidez acaba por cansar.
Uma mesa de trabalho bem pensada ou uma península conseguem quase o mesmo impacto funcional, com menos peso visual e mais capacidade de adaptação. Além disso, ajudam a preservar linhas de visão e entrada de luz natural-algo que conta muito em plantas comuns em Portugal, com cozinhas mais estreitas ou integradas com a sala.
Algumas realidades práticas que empurram esta mudança:
- Circulação: em muitas cozinhas, uma ilha acaba por criar passagens apertadas. Como regra, conte com 90 cm mínimos à volta para circular; 100–110 cm é mais confortável (duas pessoas a passar sem “dança”).
- Instalações: ilhas com lava-loiça/placa implicam obras no pavimento, mais pontos de água/esgoto e eletricidade, e por vezes limitações de condomínio. Uma mesa “seca” (sem canalizações) simplifica e barateia.
- Exaustão: colocar placa numa ilha sem um bom exaustor é um erro comum-cheiros e gordura espalham-se mais numa sala aberta. Muita gente acaba por preferir manter a confeção encostada à parede e usar o centro para preparação/social.
Em vez de um único bloco grande, cresce a lógica de cozinhas por zonas: preparação, confeção, lavagem e uma borda social. O centro deixa de ser um “monumento” e passa a ser uma ferramenta.
O substituto de 2026: “mesas de trabalho sociais” práticas e penínsulas inteligentes
A mesa de trabalho social é uma peça central comprida e visualmente leve (com pés e chão à vista), que junta preparação com usos informais: café, portátil, trabalhos de casa, petiscos. A península faz um papel semelhante, mas fica “ancorada” a uma parede ou a uma linha de armários-ideal quando não existe largura para ter circulação completa à volta.
O que normalmente resulta melhor:
- Largura do tampo: quanto mais controlada, melhor. Em muitos projetos, 70–90 cm chega para preparar e ainda garantir um lado social, sem dominar a divisão.
- Folga para joelhos (se houver bancos): uma saliência de 25–30 cm evita posições desconfortáveis e bancos sempre “a meio caminho”.
- Altura: uma bancada de cozinha costuma ficar perto de 90 cm; se a intenção for mesmo “mesa”, 75 cm é mais confortável para comer/trabalhar sentado. Se misturar funções, defina qual manda (e aceite compromissos).
A armadilha mais comum é desenhar a mesa nova como se fosse uma ilha antiga: larga, pesada, cheia de eletrodomésticos e arrumação até ao chão. Aqui a ideia é precisamente o oposto: apenas o embutido essencial, e o resto solto e flexível.
Um bom método é decidir a sua “função heroína” antes do desenho:
- Preparação (mais área livre e resistente)
- Social (bancos, luz mais quente, tomada fácil)
- Trabalho (conforto, cabos, arrumação rápida)
- Arrumação (gavetas onde faz sentido, sem criar “muralha”)
Se a função heroína for preparação, pense em: zona para facas/utensílios, uma gaveta “de trabalho” e um balde do lixo extraível por perto (evita pingos pela cozinha). Se for social/trabalho, planeie tomadas (idealmente discretas no tampo ou na lateral) e iluminação de tarefa que ajude sem encandear.
“A ilha tornou-se um símbolo de estatuto”, explica a designer de interiores Carla Mendez. “A nova mesa de trabalho é um símbolo de estilo de vida. Diz: quero viver nesta divisão, não apenas impressionar pessoas nela.”
Checklist rápida antes de avançar:
- Consegue garantir 90–110 cm de passagem nos percursos principais (frigorífico, forno, lava-loiça)?
- Existe uma “frente” clara para quem se senta/encosta, sem ficar no caminho de quem cozinha?
- Esta peça resolve uma frustração diária concreta (falta de bancada, confusão de mochilas, ausência de zona de apoio)?
Se não, corre o risco de criar apenas uma ilha disfarçada-bonita, cara e a atrapalhar.
Uma cozinha que se parece consigo, não com um showroom
Estas peças mais leves funcionam porque tornam a cozinha menos “cenário” e mais espaço de uso real. Num dia é bancada de preparação; no outro é secretária improvisada; ao fim de semana vira mesa de apoio para amigos. E, num open space típico, ajudam a cozinha a ligar-se melhor à sala-o olhar passa, em vez de embater num bloco alto.
Também são mais simples de atualizar com o tempo: trocar bancos, puxadores, pintar a base, mudar luminárias. Uma ilha pesada, sobretudo com pedra e equipamentos fixos, fixa mais o estilo-e o orçamento.
Um ponto pouco falado, mas importante: manutenção e ruído. Superfícies muito escuras e polidas denunciam riscos e dedadas; bancos altos sem apoio de pés cansam; e uma placa no centro da casa amplifica sons e cheiros. Uma mesa de trabalho social bem dimensionada tende a encontrar um bom meio-termo entre estética e uso.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Da ilha para a mesa de trabalho | Trocar blocos fixos por mesas com pés ou penínsulas | Mais flexibilidade e sensação de amplitude sem mexer em paredes |
| Definir uma função heroína | Preparação, social, arrumação ou trabalho | Evita “tudo em todo o lado” e decisões caras pouco usadas |
| Desenhar para a vida real | Portáteis, snacks, mochilas, rotina | Uma cozinha mais prática, com menos obstáculos e mais uso diário |
FAQ:
- As ilhas de cozinha vão mesmo sair de moda até 2026? Não vão desaparecer. O que está a perder força é a ilha fixa, grande e “por defeito”, sobretudo quando piora circulação e não reflete o uso real.
- O que é exatamente uma “mesa de trabalho social”? Uma peça central mais estreita e leve (normalmente com pés) que combina bancada de preparação com uso informal: sentar, apoiar, trabalhar, conviver.
- Posso manter a minha ilha atual e ainda assim seguir a nova tendência? Sim. Pode “aligeirar” visualmente (cores mais claras, menos volume fechado), criar uma zona tipo mesa com pés numa ponta, ou libertar o tampo de equipamentos permanentes.
- Uma ilha grande é melhor para o valor de revenda? Nem sempre. Em muitas casas, compradores valorizam mais circulação e funcionalidade do que um bloco enorme; uma ilha que aperta passagens pode jogar contra.
- Qual deve ser a largura de uma mesa de trabalho ou península moderna? Em muitos projetos, 70–90 cm é um bom intervalo: dá para preparar com conforto e ainda ter uso social, sem “comer” a divisão.
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